Um agente robótico pode ter emoções?

Olá caro leitor, esse post faz parte de uma série onde tentarei instigá-lo a estudar, pesquisar e, quem sabe, seguir essa área que engloba conceitos da psicologia e computação, a computação afetiva. No primeiro post, tentei resumir quais são as características e objetivos dessa área, caso não tenha lido, recomendo fortemente (clique aqui para ler). Após ter lido o post sobre o que é computação afetiva, deves ter percebido que lidamos, principalmente, com emoções. Desse modo, ao seguir por este caminho o pesquisador precisa adquirir conhecimento sobre como emoções podem ser simuladas pelos agentes computacionais (virtuais ou físicos) e identificadas pelos usuários (nós). Afinal, uma das vertentes dessa pesquisa é investigar como a simulação de emoções por agentes computacionais pode influenciar e afetar o usuário, seja na mudança de comportamento ou na mudança de seu estado emocional. Contudo, para melhor entender a área da computação afetiva primeiramente precisamos entender o que são as emoções.

Acredito que todos nós em algum momento da vida nos deparamos com alguma emoção, e por esse motivo, sabemos o que são. Porém, como podemos definir esse sentimento? Como podemos reconhecer o estado emocional de outra pessoa? Como o comportamento, expressão facial ou voz de uma pessoa podem informar a emoção que ela está sentindo? Quais são as ligações entre as expressões corporais e a emoção da pessoa? Quais as diferenças entre emoção e humor? O que causa emoção e como influencia nosso comportamento e, principalmente, nossas decisões? Essas são algumas de muitas perguntas que podem ser levantadas quando lidamos com esses sentimentos. Por esse motivo, acredito que não é uma tarefa simples definir o que são emoções e encontrar respostas para todas essas perguntas. Inclusive, mesmo os psicólogos têm dificuldade em definir o que são emoções de forma adequada. Para termos noção, cerca de 100 definições foram categorizadas [1]. Um exemplo de definição é: “uma emoção é um estado ou processo psicológico que media entre nossas preocupações (ou objetivos) e eventos em nosso mundo”. Imaginem a seguinte situação, você está passeando tranquilamente com seu filho pequeno e, de repende, um gigante urso aparece, qual seria a sua primeira reação? Provavelmente, procurar uma maneira de proteger seu filho, correto?! Em algum momento, uma emoção dará prioridade a uma pessoa dentre outra. Nesse sentido, emoções são a fonte dos nossos valores, definindo, quem e o que amamos, o que nós não gostamos e o que desprezamos. Além disso, a moralidade pode emergir de nossas emoções. Alguns autores também informam que as emoções nos ajudam a entrar e manter uma relação afetiva.

O estudo sobre emoções é muito antigo e começou fora da área da psicologia, um carinha filósofo chamado Aristóteles (384-322 AC) considerava que emoções aparecem como resultado de nossas crenças e, como tal, estamos no controle das emoções, assim como no controle de nossas crenças. Em 1649, René Descartes chamou emoções de paixões, onde ele informava que nós tinhamos seis emoções fundamentais, que são: maravilha, desejo, alegria, amor, ódio e tristeza – ocorrem no aspecto “pensante” de nós mesmos, que ele chamou de “alma”. Ele considerava que a origem das emoções é na “alma”, e que as emoções não podem ser completamente controladas pelo pensamento. Como Aristóteles, Descartes sugeria que as emoções dependem de como nós avaliamos os eventos. Algumas ideias sobre emoções foram criadas por 3 cientistas que talvez já tenhas ouvido falar, um tal de Chales Darwin, um outro chamado Sigmund Freud e um terceiro chamado de William James.

Charles Darwin

Darwin levantou as seguintes perguntas em seu trabalho [2], como as emoções são expressas em humanos e em outros animais? E, de onde vem as emoções? Como resultado dos seus estudos, Darwin inferiu que as expressões de emoção derivam em grande parte de hábitos que em nosso passado evolutivo ou individual já haviam sido úteis. As expressões emocionais são baseadas em mecanismos semelhantes a reflexos e podem ser desencadeadas involuntariamente em circunstâncias semelhantes às que desencadearam o hábito original. Inclusive, nesse trabalho Darwin apresentou informações interessantes de como são as reações do corpo quando deseja expressar determinada emoção.

Expressão, reação corporal e emoção.
Expressão, reação corporal e emoção.


Sigmund Freud.
Sigmund Freud

Freud apresentou uma abordagem mais psicoterapêutica, informando que alguns eventos são tão dramáticos que ocasionam cicatrizes emocionais, que moldam a nossa vida. E como Darwin, ele pensava que uma emoção no presente pode ser derivada de uma do passado.


William James.
William James

William James, tinha uma abordagem mais fisiológica e propôs que, quando percebemos o “fato emocionante”, a “emoção” é a percepção das mudanças em nosso corpo à medida que reagimos à situação. Em outras palavras, um estímulo, produz uma resposta que gera uma emoção.


Bem, existem diversos estudos onde seus autores tentaram criar definições diferentes e que mais se adequavam a sua área para tentar definir o que são emoções. Porém, alguns pesquisadores concordam haver emoções que podem ser consideradas básicas, e que cada uma delas tem algum tipo de módulo. Por exemplo, Ekman [3] (um dos mais famosos pesquisadores desta área, foi consultor de uma série muito interessante chamada Lie to Me, recomendo assistir!!) considera que existem 6 módulos: alegria, tristeza, raiva, nojo, medo e surpresa. Ekman chegou a essa constatação após um período de observações feitas em uma aldeia em Papua Nova Guiné, cujos nativos nunca haviam tido contato com outra civilização. Ele solicitou aos participantes do estudo que expressassem em seus rostos as emoções correspondentes, chegando assim a classificar 6 emoções básicas, citadas anteriormente.

Expressões Faciais - Paul Ekman.
Expressões Faciais – Paul Ekman.

Certo, mas o que isto tem a ver com computação afetiva? Pense comigo pequeno padawan, se uma pessoa sorri para determinada situação de forma que para nós dá a sensação de que ela esteja feliz, não poderia um agente virtual ou físico (como um robô) fazer a mesma expressão e, assim, passar a mesma sensação de que também esteja feliz? Acredito que sim! Apesar de que, temos que ter em consideração que este agente, por ser algo que não tem “alma” ou sentimento, não necessariamente está feliz com a situação, este está apenas simulando que felicidade. Em outras palavras, a computação afetiva estuda abordagens, conceitos e situações para que esses agentes possam simular emoções e fazer com que consigamos perceber e termos a nossa percepção em relação a este agente modificada por meio dessas emoções simuladas.

Em meus estudos de doutorado, utilizei um robô muito especial, chamado Emys. Esse, conta apenas com uma cabeça, ou seja, ele não tem um corpo com braços, tronco e pernas. Porém, a sua principal característica é ter uma cabeça com elementos que em conjunto, conseguem simular emoções através de expressões faciais. Com essa capacidade, foi possível realizar diversos estudos, onde foi observado que o estado emocional do participante, assim como, seu comportamento e a percepção em relação ao Emys foram influenciados. Em futuros posts, irei demonstrar alguns estudos com resultados muito interessantes obtidos com o uso do Emys.

Expressões Faciais do Emys.
Expressões Faciais do Emys.

Neste post, tentei fazer com que você, nobre leitor, entenda um pouco mais do que são emoções e como elas afetam a nossa vida e comportamento. Além disso, acredito que consegui fazer perceber que dependendo da forma como demonstramos uma determinada emoção, essa possa também ser demonstrada por um agente virtual ou físico. E, desse modo, ser possível realizar quase a mesma influência como se fosse uma pessoa. Fique ligado neste site que nas próximas semanas irei descrever estudos onde foram obtidos resultados interessantes utilizando agentes, seja virtual ou robóticos, com conceitos da computação afetiva. Acredito que vais ficar impressionado e irá abrir sua mente e atiçar a criatividade.


Esta postagem foi originalmente divulgada no site TechSocial4Survive e está reproduzida aqui com a autorização do autor.

Referências:

[1] P. R. Kleinginna, Jr. and A. M. Kleinginna. A Categorized list of emotion definitions, whit suggestions for a consensual definition. Motivaton and Emotion, 5(4):345-379, 1981.

[2] C. Darwin. The Expression of Emotions in Man and Animals. 1872.

[3] P. Ekman. Basic emotions. Handbook of cognition and emotion 98.45-60 (1999): 16.