Projeto usa IA para desvendar a linguagem dos animais

As ferramentas de inteligência artificial aplicadas para o processamento de linguagem natural alcançaram desempenhos impressionantes nos últimos anos. Graças à vastidão de textos disponíveis online para treinamento e a estruturas inovadoras de rede neural, os algoritmos podem entender a estrutura das frases, a escolha das palavras e as peculiaridades dos idiomas, e assim fazer sugestões relacionadas à ortografia ou à próxima palavra quando estamos digitando uma mensagem ou um e-mail.

Essa evolução também nos permitiu compreender algumas características que parecem ser comuns a todas as línguas. Por exemplo, os algoritmos são estruturados para levar em consideração a proximidade entre palavras, e a frequência com que ocorrem juntas, e assim foi possível estabelecer que todas as línguas possuem aproximadamente 600 dimensões semânticas independentes, ou seja, cada palavra poderia ser descrita por um vetor de 600 dimensões. Palavras com significado similar tendem a estar próximas neste espaço semântico multidimensional. Com essa e outras descobertas, foi possível decodificar automaticamente línguas já extintas, como o ugarítico (um precursor do hebreu) e o linear B (uma língua silábica relacionada ao grego antigo).

Agora, um projeto está buscando usar esses avanços com um objetivo ainda mais inusitado: compreender a linguagem de outros animais. O Earth Species Project (Projeto Espécies da Terra) pretende coletar sons emitidos por mamíferos grandes para permitir que possamos, em um primeiro momento, definir uma questão ainda sem resposta: será que os humanos são a única espécie que usa linguagem? Caso seja revelado que outros animais também desenvolveram suas próprias línguas, a próxima pergunta óbvia a ser investigada é: o que eles dizem entre si?

O time envolvido no projeto está trabalhando com etologistas para estudar elefantes selvagens no Congo. Esses animais foram escolhidos porque elefantes têm o triplo do número de neurônios que humanos, ainda que em distribuições bem diferentes daquelas encontradas em nós. Isso pode indicar a capacidade de exercer algumas funções cognitivas complexas, como aquelas relacionadas ao pensamento, à comunicação e à aprendizagem. Se bem sucedida, a iniciativa deve revelar como é a estrutura da linguagem desses animais, e talvez até abrir um canal de comunicação entre eles e nossa espécie.

Há ainda poucas informações disponíveis sobre o projeto, mas os pesquisadores pretendem disponibilizar os datasets e as ferramentas em formato open source. Assim, quem sabe, num futuro próximo, sejamos capazes de nos comunicar de uma maneira muito mais eficiente com nossos animais de estimação.