Novas profissões em Inteligência Artificial

Em um artigo anterior, apresentei algumas das principais posições de trabalho atualmente encontradas no mercado de Inteligência Artificial. Como esta é uma área nascente, em constante e rápida evolução, é de se esperar que seu amadurecimento faça aparecer novas necessidades que deverão ser preenchidas por trabalho especializado. Fazendo uma analogia ao próprio conceito de inteligência, é como se a área fosse um cérebro se desenvolvendo ao longo da evolução: atualmente estamos nos seus estágios iniciais, onde alguns conjuntos de neurônios formam áreas especializadas mas conceitualmente separadas; conforme o sistema se torna mais complexo, estas áreas começam a interagir entre si e gerar resultados mais rebuscados. Como, ao contrário do nosso próprio cérebro, este processo todo está sendo dirigido por nós, a presença de coordenadores vai ser essencial para que tudo funcione em sincronia.

Neste artigo, vou apresentar algumas novas funções que já são emergentes e que devem ganhar ainda mais destaque nos próximos anos, conforme a inteligência artificial caminha no sentido de realizar todo seu potencial.

Designer de inteligência

Conforme apontado anteriormente, a evolução da inteligência artificial está sendo dirigida e tem um objetivo bem definido, sendo importante que se garanta que cada passo neste processo se mantenha alinhado com este objetivo. Os designers de inteligência serão aqueles que vão tomar decisões estratégicas sobre como, quando e onde desenvolver componentes de inteligência artificial em sistemas maiores e complexos, indo aos poucos substituindo o trabalho que atualmente fica a cargo da inteligência “natural” por sua contraparte artificial, tão logo ela esteja habilitada a assumir esta responsabilidade.

Os designers de inteligência serão parecidos com os cientistas de dados atualmente, mas com um foco mais amplo. Enquanto que estes últimos são responsáveis pela transição de operações tradicionais em operações inteligentes, os primeiros vão coordenar as diferentes operações isoladas na forma de um sistema inteligente que, através da soma de suas partes, se torna um “cérebro empresarial”, capaz de tarefas mais amplas e abstratas. É mais ou menos como integrar as funções separadas da visão, da audição e do olfato em um conjunto informacional integrado que nos fornece um retrato prático completo do mundo que nos cerca.

Em suma, estes profissionais vão garantir que a inteligência artificial alcance habilidades cognitivas de níveis de abstração superiores.

Curador de dados

É senso comum na área que a maior limitação de um modelo está relacionada à qualidade dos dados que ele recebe. Atualmente, também é competência do cientista de dados fazer a curadoria desta matéria-prima para os modelos de machine learning, mas conforme a inteligência artificial se torna mais predominante no mundo empresarial, os dados vão ganhar cada vez maior relevância, precisando de um profissional ainda mais especializado. O curador de dados vai garantir que os dados necessários estejam disponíveis, e que todas as etapas de pré-processamento pertinentes, incluindo limpeza e rotulação, tenham sido realizadas. Enquanto a preparação dos dados fica a cargo dos curadores, os cientistas podem se focar nas etapas seguintes relacionadas a produzir insights e encontrar respostas fazendo uso dos dados e algoritmos.

Evangelista de dados

Esta função já existe em grandes organizações, mas com o tempo, ela deve se tornar uma posição de trabalho especializada. A principal função do evangelista é divulgar a cultura dos dados dentro da empresa, estimulando os profissionais a procurarem soluções baseadas em dados sempre que isso for possível. Ele também deve evidenciar a importância dos dados para que sejam coletados e armazenados da forma mais prática possível – por exemplo, preferindo formas estruturadas -, e fomentar sua democratização, enfatizando onde os dados estão disponíveis, como acessá-los e como aplicá-los.

O evangelista será especialmente importante na fase de transição de uma empresa tradicional para uma empresa orientada por dados, onde, ainda que haja comprometimento dos dirigentes e colaboradores, muitos não sabem como aplicar os conceitos desta nova área às suas atividades cotidianas.

Administrador de conhecimento digital

Uma empresa que hoje já entenda a forma com que, por exemplo, o Google Maps indexa e exibe informações comerciais, já tem uma enorme vantagem competitiva, já que os consumidores cada vez mais buscam este tipo de informação em plataformas online. Por isso, as empresas vão precisar de um profissional que as mantenha atualizadas sobre as novas tecnologias e tendências do mundo digital, para que elas continuem relevantes no ecossistema inteligente do novo mercado.

O administrador de conhecimento digital vai ser responsável por manter e fornecer informações estruturadas da empresa às APIs de ferramentas de busca e assistentes virtuais, facilitando a interação com o público interessado e aumentando sua relevância nos resultados das buscas. Ele vai garantir que estas informações sejam corretas e estejam atualizadas, e que projetos internos estejam alinhados com investimentos em conteúdo, produto e sentimentos relacionados à marca.

Designer em interação com IA

De nada adianta uma inteligência artificial eficiente se o usuário não souber interagir com ela, ou se não se sentir confortável em fazê-lo. O designer em interação com IA vai garantir que este processo seja simples e intuitivo, removendo barreiras para seu uso. Ele vai determinar a forma mais adequada de interação – se por voz ou texto escrito, por exemplo -, quais comandos a interface vai ser capaz de entender, e até aspectos relacionados à personalidade da inteligência artificial, para que ela seja o mais parecida possível com uma pessoa normal, eliminando qualquer atrito em sua adoção principalmente nas funções tradicionalmente realizadas por pessoas.

Redator cognitivo

A principal forma de interagir com a inteligência artificial será na forma de texto, escrito ou falado. Os assistentes virtuais já nos mostram que, graças aos recentes avanços no processamento de linguagem natural, as barreiras iniciais nesse sentido já foram removidas, mas uma empresa precisa estar atenta a outros aspectos da comunicação quando interagindo com seus clientes. Além de abrir um canal de interação, é preciso cuidar de aspectos como a imagem da marca, ao mesmo tempo em que considera as limitações impostas pelos algoritmos de NLP. Assim surge o papel do redator cognitivo, que alia os aspectos técnicos relacionados a esta função com a criatividade de um escritor encarregado de manter a a identidade textual da empresa. O redator cognitivo vai integrar conhecimentos de tecnologia, serviço ao consumidor e marketing, para garantir que a experiência de interação esteja em concordância com os objetivos finais da organização.

Eticista

Atualmente, muitas discussões e conferências debatem sobre as implicações éticas do uso da inteligência artificial. Já é evidente, por exemplo, que um algoritmo treinado com dados “enviesados” vai produzir resultados enviesados, no sentido de reproduzir um preconceito presente nestes dados originais, o que é obviamente indesejado. Outra questão que ganha relevância é como a inteligência artificial deve solucionar dilemas éticos, do tipo: na impossibilidade de evitar um acidente, deveria um carro autônomo privilegiar seus passageiros ou o menor dano possível? Além disso, é necessário garantir que os algoritmos estejam alinhados com os objetivos da sociedade, como o bem-estar universal e a preservação do meio ambiente. Dentro das empresas, o eticista vai ser responsável por fazer esta ponte, traduzindo conceitos da dimensão ética para linguagem de programação, de forma a produzir uma inteligência artificial benfeitora e construtiva.


Neste artigo, apresentei alguns cargos que estão surgindo conforme a inteligência artificial vai ganhando relevância dentro das empresas. As maiores companhias já têm profissionais realizando as funções discriminadas, mas elas devem ganhar ainda mais importância conforme a inteligência artificial deixe de ser uma ferramenta para se tornar uma filosofia de trabalho, se consolidando como profissões distintas e específicas. Mesmo que algumas delas não estejam diretamente relacionadas aos conceitos mais técnicos da inteligência artificial, todo profissional do futuro deve se beneficiar de ter uma base sólida nesta que deve se tornar uma disciplina básica de muitas carreiras onde a tecnologia seja parte integrante.